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segunda-feira, 8 de julho de 2013

O concerto



Se estendia nas notas o poder de um silêncio profundo. Em cada zumbir melódico ele se expandia para fora e para dentro de si. O maestro deslizava o som com o corpo e o encenava ordenando a orquestra. A música era varrida por todo o salão como ondas do mar se quebrando em todos os ouvidos e espumando pela mente. Ele, mais do que ninguém, sentia-se carregado por elas derretendo-se entre a junção dos instrumentos. Sua alma era sacudida e desafiada a cada tom que se erguia elevadamente. Sentia vontade de mergulhar cada vez mais por dentre aquela música, de dançar deliberadamente e se expressar de tal forma que pudesse se unir ao mundo.
  Era algo totalmente novo para ele os olhares libertadores e amorosos de todos os músicos, era totalmente novo para ele uma arte tão forte e tão inspiradora. Não era como nas sarjetas, não era como num transporte público qualquer aonde as pessoas parecem ser feitas de um diamante impenetrável, superiores e intocáveis. Ou pelo menos eram assim que se transpareciam. Os músicos deixavam sua alma bailar alheiamente com todos, e sentiam amor por isso. Não sentiam medo de se expressar, não sentiam orgulho em emprestar emoção.
  Ele sequer tinha dinheiro suficiente para pagar o ingresso para aquele espetáculo. Ele sequer tinha roupas apropriadas para a ocasião, mas carregava no coração mais paixão que qualquer outra pessoa. Haviam velhos enrugados com suas senhoras cheias de jóias, tais quais o olhavam feio por suas vestes atrofiadas e cabelo sujo. Haviam também homens maduros que se auto prestigiavam por frequentar um evento chique. E como ele, haviam aquelas pessoas apaixonadas pela música, e delas, surgia no ar uma corrente de energia que ele mal pudia explicar, mal podia ouvir seus próprios pensamentos tamanha a emoção que o transbordava.
  Ele saiu da onde sequer podia ter entrado, mas saiu num estado que nenhuma palavra poderia explicar.

Beijos, D.

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