Páginas

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Duas mãos.

Você desapareceu pela noite como de costume. Você voltou a vagar como um refugiado aventureiro por aquele mundinho que era só nosso, e hoje, é apenas uma pincelada negra e borrada em um quadro branco. Pela primeira vez, sentada nessas estradas á espera do que não volta, eu encontrei comigo um coração. Quando duas lágrimas se mesclam numa mesma dor, não á mais o que se esperar. Duas lágrimas que vagaram congeladas por aí por tantos anos, e agora juntas, conseguem se espelhar e secá-las para sempre. É hora  de darmos as mãos e esperar por um amanhecer nessa paisagem esfumaçada e moribunda. Duas máscaras quebradas que foram arrastadas para perto uma da outra pelo vento. Unidas contra um mesmo viajante que aparece e desaparece como sombra viva. Quando tudo se torna tão contorcido e abstrato que parece que seu coração vai explodir. Aonde você estava em todo aquele momento que eu corria assustada e sozinha? E pensar que você me procurou todo este tempo...

Beijos, D.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O compasso da chuva


Desço aos pulinhos e com os pés saltitantes pruma estrada que me levaria ao meu amor. Com pouco espaço para andar pela calçada e um cheiro de terra molhada. Com os fones de ouvido, meus pés me carregavam quase dançando pelo asfalto daquela rua comprida. Aquela dita chuva molha bobo, das gotas que vão molhando sem que você perceba, ensopavam aos poucos o meu cabelo e ao invés de correr, me permitia molhar-se. Todas as cores pareciam saltar e dançar comigo. O ventinho me envolvia, lágrimas do céu me lavavam e eu me sentia vazia o suficiente para absorver toda a felicidade das árvores, da terra e do orvalho. É como se eu soubesse de cor a melodia daquela estradinha vazia. Haviam flores nas quais eu nunca havia visto, ou simplesmente nunca havia reparado... Pobres belezas que posam lindas ao sol e são ignoradas por nós humanos dos olhos brilhantes. Seus traços eram tão delicados e deslizantes que me dera vontade de escorrer um lápis e pinta-las tais como são.
  Andei incessavelmente quase dançando sozinha pelas ruazinhas naquele domingo de tarde... E que ruazinhas! Seu tom caseiro e aconchegante me dava um leve sabor de canela na boca... Coloridinhas e floridas! Acima daquela lomba que quase me fazia andar para cima, estava ele em sua casa, dormindo no quentinho e no seco, eu me aproximava fria e molhada com uma saudade nos braços. Sorria de leve sem saber porque... Simplesmente por vontade de pular e rodar, eram ruazinhas silenciosas e meigas de um jeito que me deixava mais em casa que em minha própria casa. Me arrastei quase engatinhando e cheguei ao topo, no exato momento que tocava nos meus fones uma musica libertadora e dramática, o que me fazia sentir num filme qualquer enfrentando algum tipo de perigo e vencendo! Isto me fez rir! Me fez rir simplesmente por rir, de mim, da música e da lomba! Como uma criança descobrindo a cidade, descobrindo a arte de rir de si e passar pela vida com humor. Como se jamais tivesse experimentado caminhar por aí.
 Rindo e sorrindo bati na porta e entrei. Ele estava lá, lindo e com uma carinha de sono que eu sempre amei, preocupado colocou uma toalha nos meus cabelos e me secou. Eu apenas ri mentalmente da sua cara de zangado por eu ter subido sozinha e aos pulos ao invés de pedir-lhe que me buscasse de carro. Talvez não entendam, mas me deixem ser louca sozinha! Me abraçou ainda brabo e me secou com um amor quase paterno, quase em entender a minha animação.

Não tenham vergonha de se atirar nos detalhes e dançar por aí!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O concerto



Se estendia nas notas o poder de um silêncio profundo. Em cada zumbir melódico ele se expandia para fora e para dentro de si. O maestro deslizava o som com o corpo e o encenava ordenando a orquestra. A música era varrida por todo o salão como ondas do mar se quebrando em todos os ouvidos e espumando pela mente. Ele, mais do que ninguém, sentia-se carregado por elas derretendo-se entre a junção dos instrumentos. Sua alma era sacudida e desafiada a cada tom que se erguia elevadamente. Sentia vontade de mergulhar cada vez mais por dentre aquela música, de dançar deliberadamente e se expressar de tal forma que pudesse se unir ao mundo.
  Era algo totalmente novo para ele os olhares libertadores e amorosos de todos os músicos, era totalmente novo para ele uma arte tão forte e tão inspiradora. Não era como nas sarjetas, não era como num transporte público qualquer aonde as pessoas parecem ser feitas de um diamante impenetrável, superiores e intocáveis. Ou pelo menos eram assim que se transpareciam. Os músicos deixavam sua alma bailar alheiamente com todos, e sentiam amor por isso. Não sentiam medo de se expressar, não sentiam orgulho em emprestar emoção.
  Ele sequer tinha dinheiro suficiente para pagar o ingresso para aquele espetáculo. Ele sequer tinha roupas apropriadas para a ocasião, mas carregava no coração mais paixão que qualquer outra pessoa. Haviam velhos enrugados com suas senhoras cheias de jóias, tais quais o olhavam feio por suas vestes atrofiadas e cabelo sujo. Haviam também homens maduros que se auto prestigiavam por frequentar um evento chique. E como ele, haviam aquelas pessoas apaixonadas pela música, e delas, surgia no ar uma corrente de energia que ele mal pudia explicar, mal podia ouvir seus próprios pensamentos tamanha a emoção que o transbordava.
  Ele saiu da onde sequer podia ter entrado, mas saiu num estado que nenhuma palavra poderia explicar.

Beijos, D.

sábado, 6 de julho de 2013

Libertação

Permitiu-me respirar sem o vão que atormentava-me, de todos os olhares, foi o teu que me encantou.

Beijos, D.

Um final de tempestade


Você tem sido aquela lágrima perdida dentro de mim. Você tem sido aquele amor tropeçado que se atrofia sorrateiramente em algum canto qualquer nos meus sonhos. Tem sido aquele figurante que passa de vez em quando para um olhar gélido e se vai... Nunca se sabe quando você vai voltar, quando as tuas palavras vão me acalmar ou trazer mais confusão. Independente do tipo de olhar, sempre me trouxe paz. Não é como se você desaparecesse... é como se você se tornasse um fantasma vagando por perto de mim. Como se eu não pudesse te tocar, mas você sim. Pudesse me acariciar enquanto eu durmo, pudesse secar algumas lágrimas sem que eu percebesse. Apenas passa... Como um eclipse que muda sua noite e acaba. O teu toque tem estado nas minhas memórias e a tua voz no meu coração.
 Eu acho que todo mundo tem aquele amor que não acaba... e não começa. Tão surreal quanto uma ilusão. Aquele amor que vive com você esteja com quem estiver. No entardecer é sempre com você que eu sento para contar como foi meu dia. Os meus sorrisos e tristezas sempre acabam com você, seja quem for o causador. Nós talvez nunca possamos nos deitar e nos abraçar finalmente juntos, talvez nós nunca nos toquemos de novo, talvez nós nunca possamos dar as mãos e em paz, descansar. Por que nós nos cruzamos e apenas isso.
 Pra sempre.
 Procuramos um pouco um do outro em cada pessoa que passa por nossas vidas, mas apenas os nossos olhares continuam sendo sinceros.
 Ainda espero pelo dia que aliviada, saberei que poderei ficar... Te ver e ficar. Sem vai e vem, sem se cruzar, ir e ficar.
 Pra sempre.
 Eu te carregarei comigo, por que nós estamos ligados por algo muito mais forte que tudo.... Você tem sido pra mim, um final de tempestade.

Beijos, D.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um pouco de Lú e Criação

Como já escreveu Shakespeare e muitos outros na história: '' Há mais de seus pais em você do que você supunha.''
Desde pequena, acompanho o jeito de ver o mundo do meu pai. Ele sempre contava das experiências no universo colorido dele. Ele gostava de fazer testes disfarçados de brincadeiras para que eu e meus irmãos soubéssemos  observar o mundo. Sempre nos disse que as ideias mais brilhantes da humanidade vinham de simples observações quase obvias, nas quais ninguém ainda havia percebido.
Certa vez, por volta dos meus 6~7 anos, a minha televisão havia estragado e ao invés de mandar ao concerto, ele me disse que procurasse algo que eu gostasse de fazer. Então eu peguei uma folha e os poucos lápis de cor que eu tinha e comecei a desenhar o que eu via. Quando eu mostrava pra ele, ele me fazia olhar de novo para o que eu havia desenhado, e me perguntava por que eu havia de ter desenhado um retângulo se tinham vários lados? Então me ensinou a desenhar as coisas como realmente são, com perspetiva.
Aos oito anos, ele conseguiu pra mim aulas de arte terapia para que eu desenvolvesse a criatividade e aprendesse coisas novas. Eu ajudava ele as vezes a brincar com as palavras compondo frases objetivas e diferentes nos slogans para os trabalhos dele.
Eu sempre soube que podia contar com a ajuda dele para absolutamente qualquer coisa. Passamos muitas tardes falando sobre como são as pessoas e como é o mundo. Ele gostava de brincar sobre como as vezes são incrivelmente estúpidos os egos humanos, e sempre que eu tinha um problema, ele jogava frases ao vento para que eu as ligasse e pensasse como selecionar a questão. Com dias mãos, dois olhos, dois ouvidos e uma boca, há de se fazer qualquer coisa. É só deixar os egos pra lá e brincar com a inteligência.
Há uma frase pela qual eu sou eternamente apaixonada que diz: ''Você é tão mais doce que o chocolate que basta colocá-lo em tua boca para ver quem se derrete por quem.''
Eu nunca vou esquecer da gente meditando juntos no templo budista, ou fazendo brigadeiro para em seguida ver séries ou mesmo nesta quarta passada que eu me senti mal na escola e ele veio de longe para ver como eu estava e me fazer cafuné até dormir.
Pensador, escritos, desenhista, psicologo, cozinheiro, designer de produto, o lance lá das relações humanas... Não, ele não foi nada disto, mas por mero diploma. Como web designer, ou agora como gestor ambiental e como meu pai, ele é o melhor do mundo naquilo que faz.

Beijos, D.