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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Uma noite de entrega


As luzes piscando me deixavam atordoada, o som alto me envolvia, meu corpo cedia. Todos entregavam-se a dança como se entregassem suas almas as vibrações daquele local. Eu sentia meu corpo explodindo de dentro pra fora. Eu podia sentir você na minha pele e precisava de uma bebida forte por isto. Uma mulher amarga e esbelta cuspia seu canto lastimoso em todos os joão-ninguém daquele bar. Todos sem nome, sem origens, apenas por aquela noite, apenas por um momento. Aquelas palavras de rancor eram sopradas naquela voz esganizada direto pra o nucleo do meu ser, se espalhava pelo corpo e transformava-se em ódio, em amor, em ira e em lágrimas. Em qualquer situação normal eu estaria recuada e com medo, você sabe, nunca foi do meu feitiou fugir muito menos para um lugar como este. Naquele momento eu achei que o ambiente se encaixava perfeitamente. Sabe querido, já ouvi dizer que eu gosto da tristeza.. E quer saber? Eu adoro experimentar as sensações. Um café forte, uma dança de lámuria, amores perdidos e beijos roubados.
- Um conhaque, por favor.
Eu adentrava pela multidão e todas as pessoas pareciam estar mascaradas. Seus rostos e corpos mostravam '' foda-se! '' e seus olhos diziam '' .. me salve.. ''. Quer saber o que eu dizia meu amor? ''Não me salve. Pelo amor de deus não me salve.'' Eu cai neste poço de imundisse e pretendo me libertar. O meu sangue está agitado querido.. agora meu amor, deixe-me dançar.
Meu corpo era conduzido suavemente pela melodia, prum lado, pro outro. Dançava sem parar, dançava por mim, dançava por todos, dançava por ninguém, pra ninguém. Eu dançava pra solidão. Movimentava meu corpo e a cada passo, sentia cacos de vidro saindo de feridas pela minha pele e sendo jogados pelo chão. Esparramados junto de bebidas derramadas no chão, esquecidos, liberados, estraçalhados.
 Todos fingiam se divertir, refugiavam-se no barulho dos rejeitados. Então eu pensei, por que não? O som preenchia meu corpo e o inflava fazendo-me esquecer do real vazio. Sempre fui apaixonada por sensações nulas, vazios e lugares distantes dentro de nós. Gosto quando as coisas não fazem sentido por alguns intantes, gosto de me sentir vagando por um mundo silencioso descobrindo minhas próprias origens. Hoje, hoje eu queria algo diferente. Queria inflar meu coração com falsas felicidades, me completar com iluções.
  Senti um sopro espalhando-se pelo meu pescoço como as ondas do mar na areia, sentia uma corrente eletrica passar por todo o meu corpo e fazer-me contorcer por alguns segundos.
- Qual seu nome..? - Perguntava um homem bonito e elegante, me tentando e me seduzindo com as mãos macias em meu quadril e a boca carnuda em minha nuca.
- Isso importa? - Perguntei petulante.
- Não mesmo... - Sua voz soava macia como seda, sedutora como goles de vinho.. tentadora. Sua voz parecia acariciar meu corpo de tal forma sensual que sentia-me tentada a virar-me, colocar as mãos naquele homem e beija-lo vorazmente.
 A batida da musica agora era de entrega. O som guiava meu quadril quase que automaticamente para rebolar devagar e dançar loucamente, a intensidade com que isto me envolvia chegou a me deixar perplexa.
Virei-me para o homem que me envolvia com seus braços. Era moreno de cabelos revoltos repicados de forma que cada mecha tinha uma própria direção lembrando-me muito de algum surfista. Os olhos eram de um avelã profundo, se olhar revelava ousadia e tentação, não os desviava dos meus. Toquei sua face com as pontas dos dedos suavemente, sua pele tinha a testura de petalas de rosas e amacies de travisseiros de plumas.
..
(Não é nenhum conto começado.. foi só distração.)
Eu estive pensando sobre nós querido, me perguntando por que não temos sossego. Nós deixamos sombras invadirem nossos corações e depois de tantas lágrimas acabamos deitados naquela cama abraçados como se nós fossemos nos quebrar caso nos desgrudassemos. Nós agimos como se nada tivesse acontecido, eu sei meu amor, isso machuca a mim também.
Sentados no chão em um lugar deserto qualquer, seus dedos acariciavam minhas costas, seus lábios tocavam meus ombros e suas lágrimas desciam pela sua face. Eu podia sentir todos aqueles sorrisos se despedaçando naquele abraço. Não era um adeus, tampouco uma desculpa e sim um '' eu vou ficar aqui.'' Nós não temos culpa, eu sei. Nós vamos dar um jeito de continuar sendo felizes sem que nada venha nos ferir. Estamos tão abalados, tão abalados. Os tiros vem de fora querido, e em quanto nós estivermos juntos eu não vou deixar que nada nos desgaste.