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quarta-feira, 25 de maio de 2011

Uma parte de mim


Eu ainda não aprendi, a conviver com isto, eu ainda não esqueci tudo que aconteceu neste mesmo lugar. Mesmo sabendo que caminho para minha própria dor, eu continuo andando pela escuridão. Me parece mais fácil se acostumar com toda esta dor que queima minha pele e me faz arder em ódio e amargura.
Durante o dia, a criatura mais sorrateira e ordinária me caça, eu corro apavorada. Mas a noite, ela me possui, ela me domina, ela me envolve, e eu deixo de ser eu mesma, pelo menos a parte de mim que eu conheço. Eu não reconheço o olhar frio que possuo. Eu não entendo como meu coração pode apodrecer assim que a noite cai. As minhas madrugadas são eternas. Permaneço acordada espalhando a dor. Eu me vingo, de todos os demónios que me atormentaram por tanto tempo. Por que eu não consigo parar? Uma parte de mim grita em quanto a de fora continua a beber lágrimas de sangue. No fundo, eu só quero resgatar todas as almas aprisionadas no mundo dos mortos. Antes, que este chão me devore. A minha caçada começa. Eu continuo a gritar mas as trevas em mim me ignoram, eu tento desesperadamente dominar meu corpo e fugir do caminho sórdido no qual me encontro todas as noites. Sangue se torna apetitoso o suficiente para me permitir prova-lo. Eu busco as forças da noite e me alimento deste luar sombrio. Me alimento das almas penosas.
As vozes se esvoaçam aos meus ouvidos. Parem! Os sussuros suplicam pela vida. Eu os ignoro e isto só aguça minha vontade de devora-los e devolve-los para o inferno. Seus gritos se tornam musica para meus ouvidos, cantem para mim, cantem para mim.
Acabo de me tornar uma escrava da escuridão. Acabo de ser amaldiçoada pelos mortos. Os caço a noite, e sou caçada ao dia.
Adormeço sobre o leito destes lagos negros. E acordo no ponto de partida. É dia, e meus demónios se foram. Minha caçada termina, quando a lua não aparece, eu me torno mais forte. O sangue escorre por minha boca e por meus dedos. Como posso me tornar tão demoníaca quando o sol mergulha nos rios?
Todos os dias, eu temo pelas noites, e na verdade eu sei. Realmente sou eu, querendo continuar viva, roubando os corações alheios. E eu me odeio por isto.

Beijos D.

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